Diário de Processo

por Diego Borges 

Diário de Processo -  2020/2021

16° Encontro - Filmagens / Final 

Dia 26 de novembro de 2021. Encontramos eu (ator), Francis (diretor), Elenor (produtor), Dani (assistente de produção), Danilo Borges (Claraboia filmes) e Juliana Boechat  (Claraboia filmes), as 9:30 da manhã na sala 11 da Oswald. Passamos o dia todo em filmagens cena a cena, parando, refazendo. Danilo também fez direção de fotografia então sugeriu muitas coisas que valorizaram ainda mais o material que tínhamos. Na parte da manhã conseguimos realizar o que programamos, tivemos que adaptar algumas coisas em função do tempo curto. Ficamos o dia todo na sala, finalizamos as 20 horas. Para mim foi muito cansativo passar o dia todo em movimento, fazendo e refazendo, trocando figurino, me adaptando também as máscaras, algumas que pudemos ter somente hoje. Francis e Jonathan ficaram felizes com o resultado das imagens. Eu de fato estive concentrado no meu trabalho e não consegui ter uma noção do todo ainda. Finalizamos essa etapa que é a última etapa em coletivo, nos despedimos à noite num encontro em um bar em São Paulo, mesmo muito cansado, fiz questão de sair para despedir de todes. Acaba hoje uma longa jornada de ensaios, viagens, encontros, desencontros. Foi uma experiência longa, onde aprendi muito. Agora seguimos para a etapa de pós produção e lançamento do site. Estreamos online no dia 15 de dezembro ainda desse ano!! 

15° Encontro - Montagem

Dia 25 de novembro. Hoje foi dia de montagem de luz de cenário. Eu também fiz o desenho de luz do espetáculo. Nesse dia nós colocamos a mão na massa para conseguir deixar tudo pronto para a filmagem de amanhã. Jonathan esteve também na montagem cuidando dos detalhes da cenografia. Criamos um corredor, tiramos o linóleo preto, e por sugestão do cenógrafo utilizamos o chão de taco. A sala não dispunha de muitos equipamentos de luz, porém consegui realizar quase tudo que planejei. Jonathan trocou os foros das cadeiras, 14 cadeiras, das mais de 20 que utilizaremos na filmagem. Terminamos tudo por volta das nove horas da noite. Seguem as fotos acima. 

14° Encontro - Início das filmagens

Dia 24 de novembro. A equipe de filmagem Claraboia (Danilo Borges e Juliana Boechat)  de Brasília chegou em SP. Encontramos na sala da Oswald as 10 horas da manhã. Iniciamos as filmagens das entrevistas mediadas por Glauber Coradesqui ( que assina a mediação do trabalho). Foram entrevistados, eu, Francis e João Turchi. Falamos sobre o projeto e sobre a pesquisa até o resultado final. Depois do almoço fomos fazer a gravação das cenas externas. Cena do início do nosso filme/performance com o personagem carregando os arquivos e cena final onde carrega a corroa de flores. Filmamos nas ruas ao redor da Oswald entre os carros e o fluxo de pessoas. Acabamos as filmagens por volta das 16 horas. 

13° Encontro - Último Ensaio

Dia 23 de novembro. Hoje ensaiamos na sala 07 da Oswald, eu Francis e Dani nos auxiliando. Aproveito para resaltar o trabalho de todos os artistas gestores da Oficina Cultural Oswald de Andrade, que sempre nos receberam bem dispostos e nos trataram super bem. Excelente parceria, representada pela figura do Marcus Moreno que nos acompanhou durante todo o processo dessa reta final. Bom, eu e Francis repassamos todas as cenas, uma a uma ele foi me direcionado para resolvermos os ajustes que faltavam. Kenia, não está com a gente esse semana por que está em cartaz com espetáculo no Festival Mirada. O trabalho do Francis se pauta mais nas imagens do que nos movimentos, então justamos o trabalho que eu havia feito com a Kenia as figuras que o diretor criou em seu roteiro a partir é claro de tudo que foi proposto por todes até aqui. Foi um dia tranquilo, como sempre muito cansativo fisicamente, pois para repetir e recriar é preciso estar por inteiro. Francis quis trabalhar comigo os desenhos dos movimentos e as nuances das falas. Encontramos lugares interessantes e desenhamos melhor o corpo e sua trajetória nos espaços. Estamos aos poucos descobrindo a potência das imagens, e a linguagem performática/dançada ganha mais destaque. O teatro agora é imagem, o filme é performance e tudo se imbrica, se fricciona e se transforma. É tudo processo, vivemos muitos momentos diferentes em cada encontro e nos deparamos também com a urgência da vida, uma nova maneira de lidar e olhar para o tempo. O tempo continua sendo um tema neste trabalho, mas agora ele aparece através da carne, do osso e da pele. A existência é uma guerra, “existir é um verbo corajoso‘‘.
Hoje me deparei com um poema do Artaud que diz muito sobre esta pesquisa:


Para existir basta abandonar-se ao ser
mas para viver 
é preciso ser alguém
e para ser alguém 
é preciso ser osso.
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne. 
                     Antonin Artaud.


No final do ensaio tomamos um café e falamos sobre a iluminação do espetáculo.

12° Encontro - Figurino e Cenários

Dia 22 de novembro. Hoje fomos em busca dos figurinos para as cenas. Eu, Jonathan e Dani nos encontramos pelas ruas do bairro Bom Retiro para procurar por brechós e lojas de entulhos tecnológicos. Jonathan é cenógrafo e figurinista deste trabalho e propôs configurações muito interessantes para nossa performance. A investigação foi feita com as diferentes máscaras em cada uma das cenas. Escolhemos o figurino base, um terno retro com palheta marrom/bege. As fotos mostram as mascaras e a escolha dos figurinos.

11° Encontro - Teste

Dia 19 de novembro. Hoje começamos a testar as imagens que Francis elegeu, pensando na perspectiva da câmera. Passamos cena a cena, ja com alguns objetos improvisados. As imagens pareceram funcionar bem, Francis disse que todos ficaram satisfeitos com esse novo material. Kenia estava com a gente hoje, Dani e João também. Passagem cena por cena parando e pensando nos enquadramentos possíveis para a câmera. Dani hoje começou assumir um papel de making of também, registrando portanto todo nosso ensaio. Eu preferi nesse momento focar no meu trabalho de ator e deixar na mão dos diretores e do João a dramaturgia e tudo mais. Acho que Francis chegou em outra frequência do que estávamos trabalhando, isso foi bom por um lado, pois deu rumos e praticidade para nosso processo. Amanhã o ensaio será feito para mostrarmos para Jonathan, cenógrafo e figurinista, e para o Glauber que é nosso mediador. Eu gosto muito de todos que estão na equipe, são artistas que eu admiro, e por isso acredito que esse trabalho será bem aceito pela público. Hoje no final do dia, quando eu já estava em casa, recebi uma mensagem do produtor pedindo para que realizemos um ensaio aberto. Porém não há mais estrutura presencial. Sugeri ao Francis para realizarmos um ensaio no sábado dia 27, mesmo que seja cena a cena, parando e conversando com o publico sobre o processo. São quase 4 anos de processo, estamos nisso desde 2018. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, e nós precisamos mudar o rumo muitas vezes. Porém é chegada a hora de finalizar, no dia 26 na sexta, vamos fazer a filmagem e no sábado se houver ensaio aberto, finalizamos esse processo.

10° Encontro - Novo Roteiro

Dia 18 de novembro. Encontrei com Francis e Dani no café Colombiano na Oswald. Kenia havia tomado vacina e hoje não conseguiu estar por conta da reação da vacina. Francis me mostrou o novo roteiro que imaginou e conversamos sobre ele. De fato o alívio foi ele ter aproveitado o que já temos, e sugerido então um roteiro para câmera, dentro de uma outra estrutura e somente com duas novas imagens/cenas. A sensação que eu tenho é que Francis trabalha super bem com dramaturgia de objetos e imagens, isso ajudou a construir uma coesão pro material textual. Por fim gostei das ideias do novo caminho, mas confesso uma pequena frustração por não trabalharmos para criar um espetáculo presencial. Sinto que esse roteiro de fato não nos serve para o presencial, porém ele dá conta do que precisamos fazer para o FAC. No final o diretor pediu para produzirmos alguns objetos para o ensaio do dia seguinte. Eu hoje estava muito cansado, esgotado fisicamente, então depois da nossa conversa preferi vir pra casa descansar para o ensaio de amanhã. 

9° Encontro - Amanhã vai ser outro dia

Dia 17 de novembro. Hoje começamos nosso ensaio as 10 da manhã. A novidade é que Francis Wilker chegou do Ceará para a ultima semana de trabalhos. Kenia e eu então mostramos na integra a sequência que estávamos trabalhando nesses 8 encontros. Foi a primeira vez que passamos tudo de uma vez, depois da entrada dos textos. João Turchi também estava com a gente. A passagem foi difícil para mim, pois era muita informação nova (textual) e também senti uma certa pressão por mostrar para o Francis o que haviamos trabalhado. Resultado, não foi uma boa passagem. Francis no final comentou sua surpresa por termos mudado toda a estrutura, demostrou não ter gostado muito disso, mas elegeu pontos do todo que poderíamos trabalhar. Eu também não gostei muito dos comentários pois havíamos trabalhado muito nisso, e de fato a passagem não foi boa, isso não quer dizer que as coisas não funcionem. Enfim, esses pequenos desentendimentos acontecem, e acredito que são bons para percebermos os desejos de cada um. Gostaria de ter repetido, mas não havia mais tempo. Francis então sugeriu trabalhar na dramaturgia e trazer alguma coisa estruturada dentro do que havíamos feito. Hoje foi de fato um dia difícil, pois mais uma vez sabia que precisaríamos mudar os rumos, e confesso que estou cansado. Há o fato humano dentro de cada processo é importante relatar esses acontecimentos, para não romantizar os processos criativos, que por muitas vezes são árduos e nos fazem querer desistir. Mas depois que tudo se ajeita o processo fica fortalecido, e assim será. Amanhã vai ser outro dia. 

8° Encontro - Bloco II

Dia 16 de novembro. Hoje começamos nosso ensaio as 15 horas na sala 03 da Oswald. Hoje tivemos a presença da Dani Fecury, que é assistente de produção e vai estar com a gente a partir de agora. Iniciamos com uma rápida passagem do bloco I para relembrar as marcas e seguimos de onde havíamos parado no ultimo ensaio, na parte onde recomeço a dançar com a música e me visto, em seguida tem a maquiagem e o momento do texto sobre o rosto. Aqui termina o bloco I. Na sequência, seguimos marcando o bloco dois onde tem as quedas das cadeiras, seguida do cão, do ritual e da morte. onde acaba o bloco dois. Conseguimos avançar até o final do bloco II porém no final sentimos a necessidade de definir os textos dessas duas partes iniciais então sentamos e começamos a rever todos s textos. No dia anterior eu havia organizado em casa uma estrutura com os textos que temos até aqui. João enviou novos trechos que também foram incorporados. Lemos e relemos em voz alta para poder compreender o arco textual do espetáculo. Modificamos bastante coisa, trabalhamos cerca de duas horas nos textos, fomos alterando e reformulando frases de acordo com o que sentimos ser necessário, principalmente em relação as ações que são feitas durante cada um dos textos. No final, Kenia me pediu para terminar alguns coisas que faltaram e me pediu para decorar alguns trechos para o ensaio de amanhã cedo, pois teremos a presença do Francis, que dirige junto com a Kenia, e que pediu para ver uma passagem do todo. Eu acredito que será bom ter a equipe reunida nessa reta final, pois ainda existem detalhes importantes a serem ajustados. Resumo do dia: ensaio produtivo, com ajuda da assistente de produção, muitos esclarecimentos do que queremos dizer. E novas dúvidas sobre o arco dramatúrgico. Até na sexta o nosso plano é ter o esboço final do espetáculo para então, na semana que vem, trabalhar na afinação das cenas, junto com a cenografia, figurino e luz. Seguimos. 

7° Encontro - Bloco I 

Dia 12 de novembro. Chegamos, eu e Kenia, a sala 11 da Oswald juntos as 10 da manhã. A diretora dividiu as cenas que temos até agora em três blocos: - 1 - Mover- 2 - Arrumar- 3 - RecomeçarEla então me pediu para começarmos pelo bloco 1. Após um aquecimento rápido, posicionei os objetos e iniciamos a passagem. Fomos bem devagar, marcando as trajetórias, as velocidades. Momento a momento. Foi importante para mim, saber de onde pra onde, como e o que aconteceria nesses momentos. Assumimos assim um trajeto e não mais um improviso. João, nosso dramaturgo, chegou um pouco depois. Continuamos de onde estávamos, na cena que chamamos ‘Ainda me Resta‘. Nessa cena, conseguimos encontrar coisas novas, os movimentos ficaram mais condensados, internos, e o textos se expandiu para possibilidades de descrever o que resta de concreto no meu corpo. ‘Ainda resta ar nos meus pulmões, o coração que pulsa, ainda resta o estômago, 72 orgãos, ainda resta essa dança‘...Fomos fazendo e conversando, para entender o que queríamos com cada momento/imagem. João falou sobre possibilidades de textos, conversamos sobre as escolhas que estávamos fazendo por não improvisar, e por definir a sequência das cenas. Passamos todo o ensaio no primeiro Bloco, porém não conseguimos chegar no final do bloco, paramos antes de eu começar a me vestir. No final do ensaio, João teve que sair, eu e Kenia fomos almoçar juntos e conversar mais um pouco sobre esses novos caminhos que assumimos percorrer. 

O primeiro bloco ficou assim:

Bloco 01

Cena 01- Apresentação do Morto -

Diego está de pé com uma mochila no chão perto de seus pés. Ele coloca a mochila e diz:


- Ainda restam meus pés que suportam o peso do meu corpo

Inicia uma sequência de movimentos, no final para perto de uma cadeira de joelhos, com movimentos de abrir e fechar os olhos quando sua mão direita passa na frente do seu rosto. Ele diz:

- Aqui quem vos fala é um morto.

Quando eu morri, não me avisaram o motivo. Só descobri que estava morto quando olhei meus dentes no espelho.

Cena 02 - Arcada -

Interrompe o movimento e procura em sua mochila por uma lanterna. Encontra a lanterna e ilumina seus dentes e boca enquanto diz:

- Nem pareciam meus. É como se não coubessem mais na minha boca.

Foi aí que eu entendi que perdi tudo e que só sobraram eles.

- Isso é um jogo, mas estamos em guerra, alguém falou, estamos em guerra há tantos séculos que a gente até já se esqueceu disso.

- A guerra nunca é nossa.

- Mas ela segue presa nos nossos dentes.

- A guerra é invisível.

- Lutamos contra corpos dentro do nosso corpo,

microorganismos que cabem no nosso organismo

e são infinitamente menores

e infinitamente mais perigosos do que nós.

- Toda guerra é biológica e a gente perde a gente sempre perde

primeiro a pele

depois os tecidos, tendões, os órgãos, um a um

sobram os ossos e os dentes

só eles sobrevivem

e são eles que contam a história da nossa derrota.

- Eu vou começar pelo início

eu vou começar pelo meu primeiro dente.

- A arcada é uma só

mas a história nunca é a mesma...

Cena 03 - 12° Dente -

Se levanta e vai até uma mesa onde abre uma gaveta e encontra vários papéis, arquivos, escolhe uma das fichas e lê em voz alta:

- 12° dente:

O que quebra meus dentes e o que não quebra.

Pega uma escova de dentes e começa a escovar-se enquanto diz o texto:

- O que quebra:

Porta, montanha, parede, asfalto, grãos (depende) pedra, telhado, caroço, tijolo, ferro, avião, concreto armado, vidro (depende), cadeira, murro (depende), osso, metal, gelo (depende), escada, utensílios domésticos (depende), carne (depende)...palavras (depende).

- O que não quebra meus dentes:

Banana, almofada, algodão, nuvem, água, carne (depende), legumes, refrigerante, tecidos, grãos (depende), papel, utensílios domésticos (depende), mar, gelo (depende), pele, maçã, caroço (depende), palavras (depende).

Cena 04 - O que me resta -

Pega uma ficha que traz em seu bolso, e a lê em voz alta:

- 24° dente: Metade do meu corpo não é humano:
ainda me resta meu ombro que se desloca em direção ao teto, meu pé esquerdo que descola do chão, eu dou um giro em torno do meu próprio eixo. 206 ossos. O sangue circula pelas veias dos meus braços eu olho para a palma das minhas mãos,97 mil km de vasos sanguíneos, enquanto os microorganismos se multiplicam de maneira parasitária dentro do meu corpo.4 mil tendões. Recomeço.

- Ainda resta minha bacia que se movimenta para baixo e minhas escapulas que fazem um pequeno circulo, as pontas dos meus dedos tocam a parte superior das minhas contas, nesse momento meu corpo forma uma barreira com milhões de células de diferentes tipos e funções para combater os microorganismos invasores. Recomeço.

- Ainda resta meus dedos das mãos, ainda resta meus cotovelos que estão próximos das minhas costelas. 360 músculos. Minhas mãos estão em punho e meu pé direito pisa de forma mais violenta o chão. Meu organismo aprende a memorizar, reconhecer e destruir os inimigos invasores. Porém, o sistema de defesa vai pouco a pouco perdendo a capacidade de responder adequadamente, tornando o corpo mais vulnerável. Recomeço.

- Ainda resta meus olhos que olham na direção do horizonte, minhas córneas, meu cerebelo. Sempre que penso nos microorganismos, imagino uma maça podre. Os micróbios roendo a maça por dentro. O interior de uma maça é um campo de batalha. Recomeço.

Ainda resta ar nos meus pulmões, ainda resta minha coluna vertebral, meu coração que pulsa.
Há outra metade do meu corpo que é humano. Por isso imagino que as coisas que não existem na verdade existem dentro de um microorganismo qualquer e por serem micro não podem ser vistas. Quando eu era pequeno fechava os olhos e imaginava que meu corpo todo havia desaparecido, então eu me sentia assim, um micro alguém, um micro corpo dentro de um micro universo que eu mesmo inventava. O interior do meu corpo é um campo de batalha. Recomeço.

- Ainda resta, sangue nas veias, ainda resta, meu coração que pulsa, meu estômago que se contorce, ainda restam minhas tripas, 9 metros de tripas, ainda restam as minhas células, 220 bilhões de células. Ainda resta o ar que entra nos meus pulmões, ainda resta meu coração que pulsa, ainda restam os fios da minha barba, ainda restam meus dentes, 34 dentes, ainda resta essa dança.

(Música)
Inicia a sequência de movimentos do início com elementos novos da partitura descrita...


Cena 05 - Preparação - (
Música)

No meio da sequência de movimentos se veste, primeiro a camisa, depois os sapatos e por último o blazer. Ao terminar se senta na mesa pega as fichas de arquivo e lê:

- 8° dente: Amor(?)

Começa a se maquiar, a música fica de fundo.

-Essas marcas a qui são das minhas inseguranças. Essas mais fundas são das dúvidas.

- Essas aqui da exigência, sou uma pessoa muito exigente. Por vezes má, posso ser uma pessoa má.

- Essa aqui é a tristeza, a tristeza tomou conta de toda essa parte (aponta). Quanto suor ja escorreu por aqui, quantas lágrimas por aqui... há um caminho de lágrimas e outro de suor.
- Essas linhas aqui são da infidelidade. Essas são dos sorrisos, a repetição diária do meu riso frouxo. Essa linha aqui pode ser a do amor.

- Essa camada fina esconde outras três camadas de pele.
Logo abaixo da pele, os músculos da face, o ossos do meu crânio. As cavidades dos ossos do rosto.

6° Encontro - Seguir

Dia 11 de novembro. Hoje nosso ensaio começou as 15 horas na sala 07 da Oswald. Após a conversa com João no encontro anterior, ficamos pensando sobre essa nova versão que está surgindo. Começamos organizando os materiais em ordem das cenas que queríamos seguir e adicionamos três outras imagens, o cão que repete a coreografia do inicio, eu sentado na cadeira comendo a maçã e por último fazer a queda das cadeiras, de todas do espaço até sair da sala. E então iniciamos a passagem do material. Fizemos algumas adaptações pois estávamos em uma sala diferente. Na passagem demorei um pouco para recuperar o início dos movimentos com a mesma qualidade. Aos poucos fui entrando mais na sequência e conseguimos atualizar muitas coisas durante a passagem. Descobrimos uma qualidade nova de corporalidade no final, na queda das cadeiras. Kenia disse que esse é o estado/qualidade que devemos iniciar o espetáculo. As descrições também funcionaram e após a passagem, que durou 35 minutos, conversamos sobre onde deveriam entrar os textos, e notamos a urgência de textos que retomem de forma clara os assuntos que tratamos, assim como sugeriu o dramaturgo João Turchi. Eu ainda sinto perdido quando tenho que dizer os textos que não são os textos definitivos, então durante a passagem Kenia notou essa dificuldade. A diretora falou ainda das intensidades de cada cena, decidiu dividir nossa estrutura em três blocos para trabalharmos diferentes ritmos e velocidades. No final fiquei mais um tempo sozinho na sala trabalhando a cena da descrição. Amanhã é sexta feira dia 12 de novembro, vamos finalizar esse primeiro bloco de trabalho, fazer uma reunião com a equipe toda para falar sobre o que encontramos até aqui. Seguimos.

5° Encontro - E a dramaturgia?

Dia 10 de novembro. Hoje tivemos a presença do nosso querido dramaturgo João Turchi. Iniciamos as 10 da manhã na sala 11 da Oswald. Mostramos para ele materiais que foram desdobrados a partir das provocações do seu roteiro e também de novas imagens que surgiram nesses poucos dias de trabalho. O improviso semi-estruturado consistiu em eu passar por todos materiais seguindo mais ou menos uma ordem, porém também encontrando coisas novas. De fato no ultimo encontro quando abrimos o espaço ganhamos outras possibilidades, que foram muito boas para as ações e que podem ser retomadas. Dessa vez algumas coisas não funcionaram tão bem, enquanto outras novas imagens surgiram. Chamo de imagem também ações, movimentos, textos. Após mostrarmos o material João falou sobre suas impressões e conversamos sobre a dramaturgia. Afinal do que estamos falando? A peça é sobre o que? Por onde queremos passar? Foram levantadas questões que ainda permanecem questões. Porém percebemos que o eixo pode mesmo ser a Guerra biológica, os microorganismos que corroem o corpo como os vermes comem uma maça podre. Discutimos sobre os assuntos que não queremos tocar, as janelas que não queremos abrir, os caminhos que queremos retomar ou mudar. João sublinhou que a dramaturgia pode se pautar na concretude da descrição do corpo, e deixarmos claro o jogo que se estabelece quando eu abro a bolsa e escolho uma das fichas com as cenas (dentes) e executo. Durante o improviso carrego dentro da mochila as fichas das cenas para me guiar, aos poucos vou escolhendo quais cenas vou fazer a partir das fichas. Talvez seja um jogo onde nunca sabemos o que vem a seguir? João sugeriu que o corpo fosse aos poucos se decompondo durante minha fala. "O que sobrou da minha mão ainda toca o chão, meus tendões por serem mais resistentes irão durar mais tempo..." e assim ir criando um discurso que deixa um pouco mais claro esse corpo morto que fala e se movimenta. Seguimos com mais inquietações, mas ficamos de experimentar amanhã essa possibilidade. Foi uma manhã produtiva, trabalhamos das 10 as 13.30 hrs. No final eu e Kenia brincamos com a possibilidade de usarmos a mascara de cachorro junto com uma dos materiais(fotos). Seguimos a procura dessa coluna vertebral do trabalho, mas ‘o ensaio hoje foi esclarecedor‘, segundo as palavras da diretora.

4° Encontro - Recomeço

Dia 08 de novembro. Tivemos dois dias de descanso (sábado e domingo), no domingo eu trabalhei no texto que Kenia havia pedido. Então começamos hoje as 10 horas da manhã, na sala 11 da Oswald. Essa será a sala onde faremos a filmagem do espetáculo. Kenia chegou praticamente junto comigo, perguntou se eu estava pronto, eu disse que sim poderíamos começar. Falei sobre a necessidade do João trabalhar os textos que reverberaram nos improvisos. Li para ela o texto que escrevi, porém não tive tempo para memoriza-lo. Então ela me pediu para retomar de onde paramos na sexta, na descrição e aos poucos tentar dizer o texto sobre a guerra biológica. Esse foi o texto:

Mais da metade do meu corpo não é humano. Ao invadir o corpo humano, os microorganismos se multiplicam de forma parasitária. Com o passar dos dias se espalham por todos os cantos. Nosso organismo contra ataca, formando uma uma barreira complexa é composta por milhões de células de diferentes tipos e funções. Elas se organizam e comandam o contra ataque aos agressores, elas aprendem a memorizar, reconhecer e destruir os microrganismos invasores. Porém, o sistema de defesa vai pouco a pouco perdendo a capacidade de responder adequadamente, tornando o corpo mais vulnerável. Os microrganismos dentro do nosso corpo podem indicar se morreremos dentro dos próximos quinze dias. Quando o organismo não tem mais forças para combater esses agentes externos, a pessoa começar a morrer aos poucos. Sempre que penso nos micróbios, imagino uma maçã podre, ruindo por dentro. O interior de uma maçã apodrecida é um campo de batalha. Talvez as coisas que não existam, habitam dentro de um microorganismo qualquer, sendo micro não podem ser vistas. Quando eu era pequeno fechava os olhos e imagina que meu corpo todo tinha desaparecido. Eu me sentia assim, como um micro alguém dentro um micro universo que eu inventava. Há uma metade do meu corpo que é humana. Talvez os micróbios que me habitam tenham sentimentos próprios, se apaixonem, sonhem, briguem entre si. Seria a vida meu campo de batalha? Por isso eu danço as ausências e os absurdos da existência, enquanto tudo rói feito maçã podre. 

Depois de um bom tempo nesse improviso decidimos organizar as cenas que temos dentro de uma estrutura linear. Kenia me pediu então para fazer todas as cenas na ordem que combinamos sem sair do retângulo marcado pela fita no chão. Ela espalhou os objetos de cena em volta do retângulo e me disse que eu poderia usar-los quando quisesse. Kenia me deu 30 minutos para executar toda a sequência.

Como eu estava muito inseguro da sequência, fiz uma passagem um pouco fria, mecânica do que poderia ser a nossa estrutura. Porém foi um ótimo exercícios para testas os materiais que temos. A improvisação seguindo as cenas da estrutura durou 25 minutos. No final conversamos sobre o que podemos fazer com isso, eu já estava bastante cansado então ficamos um tempinho pensando e conversando. Nesse momento lembrei de uma cena da nossa primeira versão onde eu me lavava e cantava uma canção, mostrei então ali mesmo no chão como seria a cena e Kenia achou que deveríamos usa-la. Em seguida após uma pequena pausa para um café a diretora sugeriu um segundo exercício, improvisar as cenas sem seguir nenhuma ordem pré-estabelecida e ainda fazer em um espaço maior, fora do retângulo, usando mais o espaço. 
Comecei espalhando algumas cadeiras pelo espaço, assim como os objetos de cena. Peguei os papeizinhos recortados e escrito o nome das cenas e coloquei na minha mochila, decidi entrar dessa vez com minha mochila, como fazia na primeira versão da peça. Coloquei os papeis dentro do bolso da mochila e conforme sentia necessidade ia tirando as cenas e fazendo elas ganharem vida ali no improviso. Aproveitei para introduzir a máscara larvária (neutra), que eu carrego comigo para os ensaios, coloquei ela no espaço sem saber o que eu poderia fazer com ela. No fundo da cena havia alguns praticáveis e uma pequena escada para subir neles, encontrei ai um novo espaço onde umas das cenas aconteceu. Kenia marcou o tempo e acompanhou tudo em silêncio, anotando e filmando alguns trechos. No final ela me disse, ‘você esteve sempre presente, não me desgrudei nenhum minuto de você, foi muito bom. É isso, o espaço deu outra liberdade para você viver cada coisa, e você ainda repetiu algumas estruturas como eu havia sugerido, acho isso potente’. De fato eu não estava preocupado com o que iria fazer em seguida de cada uma das cenas e isso me deu uma liberdade para viver cada momento e estar presente, foi bom ter feito, acho que encontramos novas possibilidades. Na conversa final pensamos que podemos usar isso tudo que aconteceu, e Kenia sugeriu que talvez de fato não precisamos seguir nenhuma ordem pré-estabelecida. Ficamos satisfeitos com o dia de hoje, foi como um recomeço, um recomeço cheio de possibilidades. 

3° Encontro - É tudo processo

Dia 05 de novembro, sexta-feria, as 10 horas eu e Kenia nos encontramos na sala de ensaios. Enquanto eu me preparava, Kenia observava e me pediu para continuar fazendo o movimento que eu estava fazendo, algo como manipular meu corpo com as mãos apontando direções e posições. Um exercício que sempre faço para me aquecer, que trabalha muito as articulações. Continuei executando os movimentos e Kenia foi me direcionando. Nesse improviso encontramos algo muito potente que pode ser uma célula importante para o espetáculo, uma dança ‘osso-articulações‘, um corpo que tenta o tempo todo se recompor e falha. A medida que fui fazendo os movimentos Kenia me pediu para não completar, deixar o gesto/movimento inacabado, e trocar logo em seguida para outro que talvez também não se completaria. Essa dança osso foi bem explorada hoje no ensaio, encontramos três variações interessantes que chamamos: quebrado, fluído, incompleto. Eu então recomecei trabalhando essas três qualidades e aos poucos Kenia ia me guiando e gravando algumas partes para vermos e discutirmos em seguida. ‘É uma dança que não é dança, e imprevisível’ ela ressaltou. Eu de fato me diverti muito fazendo essa estrutura improvisada que acabamos percebendo ter potencia para iniciar o espetáculo. Em seguida, Kenia fez um retângulo com fita crepe no chão e me pediu para trabalhar dentro desse pequeno limite, algo como uma ‘cova‘ no chão, onde o corpo morto tomava vida e dançava seus ossos. Em seguida trabalhamos o que a diretora chama de descrição: ‘Diego, vocês em tempo real, descreve como sente/percebe cada parte do seu corpo em movimento’, ela me pediu. Então iniciei o exercício repetindo a partitura do dia anterior e descrevendo o que eu estava sentindo/percebendo de forma concreta: ‘Meu ombro se desloca em direção ao teto, meu pá esquerdo descola do chão, meu joelho está flexionado, meus dedos das mãos apontam para frente...’. Durante a descrição seguinte Kenia pediu para incluir texto e frases do roteiro. Foi então que comecei a descrever um pouco sobre a guerra que acontece dentro do meu corpo: ‘sinto os sangue percorrer minhas veias, enquanto os globulos brancos protegem meu corpo de organismos invadores, estamos sempre em guerra’. Descobrimos com esse improviso que nossa guerra, a guerra que falamos no espetáculo é uma guerra biológica, onde nosso corpo é invadido, por um virus, uma bacteria, um microorganismo e precisa lutar contra isso. ‘Essa guerra representa o corpo humano, a vida e o mundo’, pensamos. Em seguida conversamos sobre as cenas da estrutura flutuante que temos até aqui. São cenas encontradas nesses três dias de ensaios e cenas que resgatamos de todo o processo. São elas:

  • dança osso
  •  cachorro
  • limpar-se
  • descrição
  • língua
  • Riso
  • maquiar-se
  • Sequência solta no espaço
  • canção cantada
  • amor (interações com o público)
  • vestir-se
  • texto memórias
  • comer maça
  • escovar os dentes 
  • o que quebra e o que não quebra
  • lanterna nos dentes
  • pontos de vista (da camera)
  • Marcas na pele
  • queda da cadeira


No final a diretora me pediu para trazer um texto a partir do roteiro e da improvisação que fizemos, como exercício para experimentarmos a guerra biológica na semana seguinte.

2° Encontro - Vamos para o Sul

Dia 04 de novembro, as 15 horas, iniciei na sala 07 da Oswald meu aquecimento. Kenia chegou em seguida e me pediu para eu mostrar a sequência. Em seguida me deu orientações para variar as qualidades da partitura e iniciamos um longo improviso, cerca de 1 hora de duração, sem pausa e sempre em movimento, repetindo de várias maneiras a mesma partitura. Em pé, deitado no chão, sentado na cadeira, comendo a maçã, escovando os dentes, lento, rápido, com diferentes gradações, etc. encontramos imagens e atmosferas potentes. Diferentes qualidades de corporalidade e interioridade. Kenia filmou alguns trechos da improvisação onde encontramos momentos e imagens que deveríamos repetir, são elas: a dança que chamamos de ‘amor‘, o comer a maça, o escovar os dentes, vestir-se (colocar calça, sapato, camisa, e blazer enquanto executa a partitura e a canção do Belchior, que eu havia trazido no primeiro encontro, retornou. Repetimos algumas coisas, conversamos sobre outras possibilidades, organizamos possíveis cenas dentro de uma estrutura ainda flutuante, destacamos frases marcantes do texto de João e finalizamos o dia com saldo positivo.

1° Encontro - Inicio da Reta Final do Projeto

No dia 01 de novembro o João Turchi nos enviou um primeiro guia de roteiro. E no dia 03 de novembro voltamos finalmente para a sala de ensaio! Eu e Kenia Dias (diretora), em uma das salas do Centro Cultural Oswald de Andrade que fica em São Paulo, centro.

Começamos as 9.30 da manhã. Combinamos sempre de eu chegar 30 minutos antes para que eu possa preparar a sala e me aquecer. Encontrei portanto com a Kenia as 10 horas da manhã. Nesse primeiro dia eu pedi a ela para mostrar reverberações a partir do roteiro proposto por João. O que mostrei foi um misto de improviso com recuperação do que havíamos trabalhado em outros momentos, imagens que estavam na minha cabeça e pedaços e trechos de textos que poderiam entrar. 

A Kenia assistiu tudo em silêncio, a apresentação do material deve ter durado cerca de 20 minutos ou mais. Ela registrou em seu caderno algumas impressões e no final, conversamos sobre o que aconteceu. ‘Gostaria de ver você fazendo tudo dançando, a peça toda dançada’. Foram suas primeiras palavras de feedback. Percebemos a partir disso um desejo de mudar os ventos para encontrar novos caminhos, sempre inspirados pelas experiências que tivemos ao longo de todo o processo e também a partir do que no roteiro poderia ser desdobrado. Decidimos em seguida, ler novamente o guião e discutir cada um dos itens apresentados pelo dramaturgo. Escolhemos o sul do projeto, pois o norte já não seria nosso destino certo. E planejamos trabalhar a partir do que aquelas reverberações nos propunha. Kenia me pediu então para trazer no dia seguinte uma partitura com 5 movimentos, uma maça, uma pasta e escova de dentes. Tomamos um café, conversamos, pontuamos a potencia de voltar a estarmos juntos, presentes, e Finalizamos o dia.

Reunião de retomada - Reta Final do Projeto 

No dia 15 e no dia 18 de outubro foram realizadas reuniões online com a equipe. Na primeira reunião definimos nosso cronograma de ensaios e filmagem. Na segunda a reunião foi com a equipe de criação (Kenia, Francis, João, Jonathan e Diego).


Arcada - ensaios
Fevereiro de 2021

Espaço cultural Oswald de Andrade - durante dez dias de trabalho levantamos uma estrutura que foi filmada no último dia. Realizamos reunião online e ensaios presenciais com Kenia Dias, Francis Wilker, Diego Borges e João Turchi.

Fotos dos ensaios de Fevereiro: 

Arcada - ensaios (Espetáculo Solo) 

Novembro de 2020

1ª Dia - Espaço cultural Oswald de Andrade -

Hoje dia 16/11/2020. Volto a sala de ensaios sozinho. Durante três horas de trabalhos foram trabalhados:

- Estudos sobre o movimento. Caminhada animal, movimento da lombar. Trabalhar a partir do impulso proporcionado pela lombar, onde os braços e pernas se movem por consequência.

- Estudo da queda e da volta da queda em camera lenta. A ideia é brincar com o tempo do movimento, onde podemos adiantar e e voltar o mesmo movimento. Vou chamar de movimento reverso. O vídeo foi produzido par acompanhar esse raciocínio.

- Estudos sobre correr de costas, outra tentativa de brincar com o tempo do movimento. Em uma das cenas da peça, eu começo o texto caminhando em círculos em volta da cadeira, então o andar vai acelerando até se tornar uma intensa corrida. Nesse experimento introduzi, pausas, caminhadas para trás, círculos sobre o próprio eixo e finalmente corridas de costas.

- Relembrar o texto e passar a cena da cadeira, onde falo sobre memórias e sobre o tempo.

Alguma fotos dos ensaios realizados em novembro: 

Este Projeto Foi Realizado Com Recursos Do Fundo De Apoio À Cultura Do Distrito Federal.